O dia que o Twitter parou

Posted in textos on March 24th, 2011 by D. Vespa

O Twitter está fora.

Pessoas correm pelas ruas, mães abraçam seus filhos e muitos estão caminhando com olhar vazio, desorientados. Muitos choram a falta de informação – “o que nós faremos sem onde postar? Como expressar o que estou pensando sem o Twitter?”.

Em poucas horas milhares de pessoas começam a sofrer de insuficiência de egolatria, perdendo, aos poucos, sua capacidade de falar devido a inundação de pensamentos represados, afinal, sem o Twitter, elas não tem como dar vazão a eles. No periodo de um dia, a coordenação motora começa a ser afetada também: dedos tentam digitar no vazio, movimentos atáxicos gerados pela deficiência de twitter no seu dia.

Quase um dia depois do apagão do Twitter, os antes quase catatônicos começar a recuperar sua capacidade de fala – mas não a sua capacidade de ordenar pensamentos. Frases de 140 caracteres sem sentido começam a ser gritadas pelos abstinentes em todos os lugares. Alguns ainda acariciam seus iPhones, quase psicóticos, sem querer aceitar a realidade que não há mais vida naquele corpo de texto. Todos os memes foram esquecidos.

Pessoas começam a morrer de fome pelas ruas pois, sem Twitter, muitas jamais souberam que era hora do almoço. Pessoas são pegas desprevenidas por tempestades pois não são mais informadas via feed que está chovendo – outras, mais adaptadas a nova realidade, conseguem evitar estas tormentas voltando aos hábitos de nossos ancestrais: olham pela janela antes de sair e re-descobrem, surpresos, que aquele incomodo no estômago significa fome.

Muitos se suicidam por conta do sentimento de vazio.  Que fazer num mundo sem Twitter? Sequer se pode reclamar via Twitter que não se tem mais onde twittar. Os que conseguiram resistir, tiveram que arrumar outras alternativas para continuar suas vidas. Muitos  chegaram até mesmo ao extremo de voltar a trabalhar ao invés de enrolar na internet.

No terceiro dia menos de 100.000 pessoas ainda permanecem vivas e conectadas. Elas descobriram que são imunes à falta de Twitter, seus organismos são adaptados para suprir a falta de egolatria por outras emoções e sentimentos e, estes poucos bravos, são os que retomarão os rumos do mundo e reconstruirão a nossa sociedade.

Quem diria que o vício em World of Warcraft garantiria a sobrevivência destes à falta de Twitter? Resta agora somente a esperança de que, um dia, estes seres desliguem-se um pouco dos jogos e tentem, ao menos uma vez em suas vidas, reproduzir para garantir a continuidade da espécie humana.

Até que isso aconteça, tudo que podemos experimentar é a incerteza…

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A respeito de energia nuclear – mais uma farsa que te empurraram

Posted in textos on March 19th, 2011 by D. Vespa

Ok, não é usual ter um post de teor “mais sério” (eu acho as tiras um trabalho sério. É sério. Ou não) mas tive necessidade de escrever algo a respeito do desastre nuclear no Japão.

Antes de mais nada, deixo claro minha posição: não sou a favor da energia nuclear, acredito que o caminho seja explorar energia eólica, solar, nitrogênio e as turbinas hidrelétricas submarinas. Todas estas tecnologias já deveriam estar num ponto muito mais avançado e sendo utilizadas em larga escala.

Mas se já se fala de ecologia com seriedade desde o final dos anos 60, discutida com veêmencia nos 80 tendo um de seus auges na tal Eco 92, voltando a ser falada no final dos 90, tendo passado por protocolos de Kyoto e o recente COP 15, por que investimentos nessas áreas são tão ridículos?

A resposta está no mesmo lugar que convenceu a você e vários eco-fanáticos: a indústria petroleira. Ressalto novamente: eu sei dos problemas que energia nuclear tem, o objetivo deste texto é só levar a uma reflexão sobre o uso de energia nuclear, e não da defesa desta.

Muita gente está usando o recente desastre para apontar o quão errado é usar energia nuclear, muitos chegando a insinuar que os japoneses pagaram pelo erro de escolher esta alternativa energética – sendo que o atual problema se deu por um erro de projeto, ou seja, uso incorreto. Mas eu pergunto a estas mesmas pessoas: se eles não tivessem usinas nucleares, qual seria a alternativa deles? As tecnologias limpas estão empacadas, no atual nível de desenvolvimento não sustentariam um país que consome energia como o Japão – e outra: essas tecnologias não estavam disponíveis há 30, 40 anos. Deveriam então os japoneses (e outros países que não são agraciados com bacias hidrográficas fantásticas como é nosso caso) esperar estas tecnologias limpas evoluir para poder fazer uso de energia elétrica? É um pouco de boa-vontade demais, não?

A alternativa seria recorrer a usinas Termoelétricas. E o que move estas usinas? Basicamente carvão e (ora, veja só!) óleo. Sabe por quê você acha que energia nuclear é o demônio? Porque nos anos 80 a indústria do petróleo patrocinou ativistas ecológicos  para protestar contra a energia nuclear, usando do medo criado pelas bombas e da desinformação. Quando Chernobyl vazou eles exultaram de alegria – seu ponto de vista estava “provado”! Mas na boa, uma usina russa decadente, com reator colado com chiclete é mais uma vez mal uso da tecnologia, não da tecnologia em si. É como pegar um programa ruim e culpar a linguagem, não o cara que programou.

Mas vem cá, vamos fazer umas contas… Quantos acidentes nucleares deste porte você ouviu falar? Dois, no máximo, contando com o do Japão. E quantos acidentes gravíssimos com vazamento de óleo você ouviu falar? Pelo menos três por ano (que chegam até a imprensa), né? E, em contrapartida ao que falam a respeito da recuperação do ambiente (por volta de 200 anos para a descontaminação completa de uma área irradiada), quanto tempo você acredita que o ambiente demorará para se recuperar depois daquele vazamento monstro da BP no ano passado? Tanto quanto ou mais – mas as pessoas nem pararam pra pensar nisso. O Capitão Planeta salvava o mundo sempre de radiação mas, misteriosamente, não se preocupava muito com a desgraceira que o petróleo causa – será que isso é indução de pensamento, uma contra-propaganda velada?

Ah, mas eu não falei ainda do lixo nuclear. Este, de fato, é o maior problema dessa alternativa de energia, ninguém sabe o que fazer com o resíduo nuclear. Atualmente enterramos e cobrimos com água para resfriar, de forma que a radiação remanescente não se espalhe. Levará um milênio pra que esse lixo deixe de ser perigoso. Mas a quantidade de lixo produzido dessa forma não é NEM DE LONGE tão grande quanto o estrago que faz uma termoelétrica que, além do óleo queimado, ainda lança toneladas de CO2 na atmosfera. Não é só o seu automóvel (que só é movido a gasolina porque essa indústria vem boicotando energia limpa há anos. A teconologia do Metanol/Alcool já existe desde o final dos 70. Reparou que só teve um “revival” nos últimos 5 anos, quando a crise petroleira piorou?) que está derretendo as calotas polares. “Mas exposição a lixo radiativo pode causar cancer” – respirar óleo diesel não?

Resumindo: o Japão, embora esteja pagando um preço terrivel, escolheu a melhor alternativa que tinha na época para conseguir muita energia sem prejudicar tanto o país e o planeta, por mais difícil que seja para nós aceitarmos isso como realidade – afinal fomos educados para acreditar que energia nuclear é pior que o diabo, e nem sempre estamos dispostos a dar um passo pra trás e estudar o cenário que levou àquela escolha.

Devemos brigar por estruturas que permitam o consumo de energia de fontes limpas, é um objetivo que levará muito mais tempo que minha vida e a sua. Mas quando falar em protestar contra energia nuclear, xingar no twitter, etc, pense em tudo isso que eu escrevi e não julgue os países que optaram por ela como “grandes monstros que não prezam pela natureza” – eles estão muito mais certos que países que sempre usaram termoelétricas.

Se existe um real inimigo, na minha humilde opinião, é a indústria do petróleo, que atravancou no último século o desenvolvimento de qualquer outra alternativa – que claro, culminou com o fato de que a tecnologia nuclear ficou como única opção viável à oferecida por eles.

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