O comentarista randômico

O comentarista randômico, cientificamente conhecido como “parlamentantis reaccionarum“, é uma das inúmeras espécies que permeiam a internet. Esta graciosa criatura é encontrada em quase toda a extensão da Web mas, os maiores bandos, são comumente avistados nos boxes de comentários dos grandes jornais ou, em algumas ocasiões, no Youtube, blogs e inúmeras redes sociais.

Esta espécie é também muito encontrada no Facebook mas, sendo uma criatura tímida e muito arisca, usa sua habilidade de camuflagem para esconder-se em meio à multidão – e você só percebe sua presença quando, discretamente, ele compartilha algo como, por exemplo, uma imagem de algum suposto bandido baleado na cabeça, e exalta o bom trabalho que o estado fez ao garantir o cessar da vida alheia. Aqui, em terras facebookianas, ele nunca profere opiniões ou soluções próprias, limita-se apenas a compartilhar e replicar o canto do seu bando, prevenindo que qualquer argumentador sensato (seu pior predador) encontre-o e, em público, coloque-o numa situação que não conseguirá argumentar sem esbravejar, vociferar e apelar para ideias que sucintam o ódio à tudo aquilo que lhe parece “errado” apenas por escapar de sua vontade de compreender. O Facebook pode ser um lugar bastante cruel para este pequeno fruto da mãe natureza.

Mas, em seu habit natural, ele usa da impessoalidade da internet para tecer seus ataques sem sofrer represálias, em busca de alimento. Sua dieta é baseada em ódio e rancor, portanto, quanto mais comentaristas randômicos estiverem em um ambiente, mais saciados de sua fome estarão. Com sorte, eles até conseguem nesses ambientes hostis reproduzir-se: a reprodução deles consiste em infectar um inocente filhote de internauta comum (interneticus vulgaris). O filhote é igual em tudo ao internauta original, mas perde o senso crítico e o respeito pelas ideias do próximo.

Um comentarista randômico típico entrará em qualquer página de notícias que possua propostas com as quais não concorda e disparará, sem o menor pudor, os mais terríveis comentários a respeito – mas, claro, por sua timidez intelectual, não proporá nada como solução alternativa. Quando atinge a idade adulta, o comentarista randômico começa a não somente comentar matérias de seu desagrado, mas usa de qualquer espaço e tentará, através de seus urros rancorosos, atrair o maior número de outros de sua espécie, todos berrando numa cacofonia ininteligível para ouvidos sensíveis. Não importará se o tema da matéria é, por exemplo, física quântica: ele conseguirá, de alguma forma, ligar a política, religião ou agredir àlguma minoria que, na sua visão, supostamente “consome” seus recursos (que chamamos cientificamente de “reação-pago-meus-impostos-e-tenho-direitos”). Aliás, é interessante ressaltar que  já foi mais que comprovado que comentaristas deste gênero não tem senso de contrato social e, se privados muito tempo de internet, poderiam atacar a si mesmos se postos em frente a um espelho, graças à energia destrutiva acumulada.

Alguns desta espécie chegam a estabelecer até mesmo grupos com milhares de indivíduos. Essas aglomerações são chamados de Reinados, e um líder-alfa espumante e desconfiado zelará pela manutenção de alimento de todo o bando, usando de sua força para conquistar espaço além dos comentários, indo para as fronteiras dos comentários para os textos de blog propriamente ditos e – quiçá – até mesmo de revistas e jornais, garantindo a sobrevivência e reprodução de sua espécie.

Mas, infelizmente, essa espécie maravilhosa do reino animal tem seu nemesis: a medida que eles geram mais e mais ódio, exigem mais e mais dureza de seus líderes, comentaristas randômicos ameaçam a si mesmos de serem vítimas do ambiente que eles tentam criar. Os comentaristas, ao entrar em contato com outras espécies, funcionam como peixes pilotos, e ajudam os grande predadores a pegar presas que, em sua visão, seriam problemas para sua própria segurança – mas sempre se esquecem que quando as presas acabam, os grande predadores continuam precisando saciar sua fome e, sem ressentimento algum, não deixará de transformar seu antigo aliado em sua nova fonte de alimento.

Professor D. Vespa é PaleWebiológo é co-fundador da Cientific Whorpa Foundation e Revista PaleWebiologia Moderna


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